Nem sempre é muito vulgar ouvir as pessoas, sobretudo os organizadores, apresentarem os seus elogios à FIA. Nos últimos anos, as relações entre os organizadores e a entidade federativa não foram fáceis, sobretudo por temas como as restrições do itinerário, subidas elevadas nos custos de registos das provas e – mais do que tudo – o sistema de rotatividade dos ralis, que impediu que provas de elevada relevância tivessem o estatuto WRC em cada ano.
Nos últimos meses do consulado de Max Mosley ficou claro que teriam de ser conseguidos alguns compromissos para bem da modalidade. Pormenores das alterações no formato dos ralis foram anunciados no final de 2009 e proporcionaram a possibilidade de regresso a uma certa liberdade de estilo nos eventos que desde sempre caracterizou este desporto.
A primeira prova do Mundial de 2010 é o Rali da Suécia, uma prova que terá respirado de alívio com a maior liberdade em termos de diferentes pisos nas classificativas. Bertil Klarin, responsável do Uddeholm Swedish Rally, referiu: “Como se sabe, pisos mistos, com neve, gelo e lama, é o que temos tido na Suécia, pelo que isso não são mais do que notícias antigas para nós!”
O Rali da Suécia foi o primeiro a ter autorização para incluir diferentes localizações para assistências remotas. “A nova regulamentação dão uma maior liberdade no planeamento do itinerário, mas é evidente que, depois de organizar uma prova vários anos da maneira, um organizador sente-se mais ‘confiante’ em manter ma estrutura testada. Creio também que levará algum tempo até que os organizadores avancem para modificações radicais, aproximando-se mais das novas regras. O planeamento de um rali inicia-se sempre 8 a 9 meses antes da sua realização e creio que essas alterações só poderão vir a surgir nas últimas provas de 2010”, concluiu Klarin. Por isso, a Suécia apresenta uma estrutura tradicional.
A segunda prova do ano será o México. Com base na regra da rotatividade, o México não contou para o WRC em 2009, mas o seu novo estilo de “Rali das Nações” permitiu a hipótese de não só revolucionar o conceito da modalidade no país como também realizar uma super especial em piso de asfalto no centro da cidade que serve de base à prova, Leon, com a especial a realizar-se a uma distância que se podia percorrer a pé desde o “quartel-general” da organização. Com a presente situação, os promotores da prova já não necessitam de uma autorização especial para fazer disputar esta prova de classificação num piso alternativo.
A Jordânia será palco da terceira prova e aqui haverá dois aspectos especiais. Em primeiro lugar, a prova termina no sábado, em vez do habitual domingo. Para um dos responsáveis da prova, “o Rali da Jordânia irá beneficiar largamente com a hipótese de poder ser mais flexível. É óptimo o facto da FIA estar a ouvir os organizadores e permitir-nos jogar com o formato do nosso evento para o tornar ainda mais importante para o nosso público. No Mundo Islâmico, os fins-de-semana são à sexta-feira e ao sábado, pelo que terminar a prova ao domingo equivaleria a fazê-lo à segunda-feira em termos europeus, o que, logicamente, afecta o número de espectadores e a cobertura televisiva.” A prova jordana começará a uma quinta-feira e termina sábado á tarde.
O segundo aspecto é a autorização para a prova pontuar não só para o WRC mas também para o Campeonato de Ralis do Médio Oriente. Problemas sem fim surgiram no Rali do Japão de 2004, na altura pontuável para o WRC e para o Campeonato Ásia-Pacífico, acabaram por assustar a FIA, mas as mais recentes normas permitem que isso possa voltar a acontecer se os organizadores tiverem um cuidado antecipado com eventuais choques de interesse. As experiências no Japão centraram-se em assuntos como a ordem de partida, distância da prova, como satisfazer os pedidos de pilotos que tinham interesse em ambos os campeonatos.
O Rali da Turquia, essencialmente corrido em piso de terra, vem a seguir no calendário, e será a primeira prova do WRC nesta região. A principal novidade surge do facto do segundo dia incluir duas rondas por quatro classificativas, com a primeira a ser maioritariamente em asfalto e a última meio por meio.
Segue-se a Nova Zelândia, onde os organizadores continuam a tirar partido da opção pelos pisos mistos, com uma super especial totalmente em asfalto de 1,5 Km (Domain) e outra no circuito de Hampton Downs (5,5 Km), a ser percorrida por duas vezes. No segundo dia haverá uma prova de piso misto (New Franklin), com 35% em asfalto. Também pela primeira vez serão montadas nos três dias assistências remotas, com actividades promocionais para atrair espectadores. Para o director da prova, Willard Martin, “as mudanças são óptimas para o nosso rali e permitem-nos a liberdade de escolher as nossas opções e não estarmos amarrados a regras que cumprem regulamentos super complexos. O “shakedown” será em Auckland, na especial de Domain, mas teremos uma especial de terra para testes na quarta-feira à tarde, para quem quiser. Também introduzimos uma classificativa final especialmente para televisão, Old Mountain Road. Isso implica terminar pelas 16h00, o que agora é possível segundo as novas regras”.
Uma das novidades do Vodafone Rally de Portugal – sexta prova do calendário – é o facto de ser a primeira de duas provas que anunciaram acordos assinados o promotor global do campeonato, a ISC. Isso tem em vista a manutenção da prova no calendário do WRC nos próximos três anos e a edição de 2010 terá um percurso muito semelhante ao do ano anterior, incluindo as super especiais no Estádio Algarve.
A sétima prova marca a estreia absoluta da Bulgária no WRC, com uma prova toda em asfalto, que tira partido do facto de poder disputar os mesmos troços em ambos os sentidos.
O Rali da Finlândia, oitava competição do calendário, já anunciou que terminará também na noite de sábado, no final de uma prova não de três mas sim de dois dias. A Finlândia foi a primeira prova a anunciar o acordo com a ISC. A prova finlandesa terá também uma super especial no centro da cidade, algo que não sucedia desde 1997, e que no passado era disputada maioritariamente em piso de asfalto.
A nona prova do campeonato, o Rali da Alemanha, também retirará vantagens das novas regras. O administrador da prova, Waltraud Wunsch, aplaude “a maior liberdade agora concedida pelos regulamentos na configuração dos eventos WRC. Para mais, cada país e cada região tem as suas particularidades, pelo que é óptimo que cada prova se adapte a essas características específicas. Do ponto de vista do ADAC Rali da Alemanha, o nosso conceito provou ser muito positivo e popular para os espectadores. Não iremos, por isso, introduzir grandes alterações e incluiremos de novo o ‘Circus Maximus’, a super especial de Trier”.
De acordo com o planeamento actual, o evento traduz a nova liberdade de regulamento, com aproximadamente 420 km de provas especiais, com alguns pisos de terra, concebidos essencialmente para zonas espectáculo, numa reduzida percentagem da distância total de troços, pelo que a prova continuará a ser esmagadoramente de asfalto.
Mais pormenores sobre as provas do WRC chegarão quando estivermos mais perto das restantes provas – os detalhes (Rally Guide) têm de ser publicados com cinco meses de antecedência sobre a data de realização – mas, para já, o sentimento é muito positivo face às novas regras introduzidas pela FIA. Isto implica um início positivo de campeonato no dealbar de nova década.